Meu manifesto vira-casaca

Tuesday, 20 October 2009, 15:20 | Category : Cultura do futebol
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“Nunca se justifique: os amigos não precisam e os inimigos não acreditam”. Concordo com este tradicional provérbio árabe, porém sempre há aqueles amigos que nos fazem perguntas – não por desconfiança, mas por mera curiosidade. Como é de conhecimentos de uns (até agora), não fui sempre torcedor da Ponte Preta. Na realidade, a certeza de que apoiaria o time campineiro “veio” apenas no começo do Paulista de 2008, mais precisamente na rodada em que enfrentamos o Corinthians em casa (derrota por 1 x 0 com gol do uruguaio Acosta). Mas antes de falar sobre o momento em que finalmente aceitei que a “Nega Véia” seria o time certo para mim, vou refazer de maneira breve a minha trajetória futebolística até então.

Nasci em 1984 e, como grande parte da minha geração, segui o rumo do time que empilhava taças na época, o São Paulo. Torci, comemorei as conquistas, chorei o vice da Libertadores para o Vélez Sarsfield perto do meu aniversário de dez anos. E fui assim até 1998, quando saí dum bairro onde havia crescido para morar no outro lado da cidade – ironicamente, no Jardim Guarani, lar do time homônimo e seu estádio. Graças à nova vizinhança reclusa e ao fato de eu não jogar mais futebol, fui me afastando completamente do esporte: em 2000, não vi NENHUMA partida durante todo o ano – e quando tentei, os alambrados de São Januário foram rompidos pela torcida vascaína naquele episódio da final da Copa João Havelange.

No ano em que a Seleção foi buscar o penta em terras asiáticas, comecei o curso de Jornalismo – e aos poucos fui retornando aos gramados. Com um grupo de amigos que passou quatro anos discutindo toda rodada e palpitando em bolões, reencontrei a paixão pelo esporte, mas não pelo clube. Ser são paulino era bom, claro: o clube era um exemplo de organização (com o início da administração Gouvêia), os títulos começaram a vir com certa frequência, mas faltava o tal do “sentimento”, eu não conseguia ver o São Paulo como algo além de uma empresa bem sucedida.

Os anos passaram, encerrei o curso sem aproveitá-lo profissionalmente, mas evoluí muito no que diz respeito à compreensão do que é o fenômeno social chamado futebol. Além disso, passei a ler frequentemente algumas comunidades sobre futebol no Orkut (principalmente Futebol Arte é Coisa de Viado e Não ao Futebol Moderno). Quanto mais lia as postagens, mais sentia vontade de viver realmente o futebol – e não apenas acompanha-lo do sofá de minha casa.

O grande divisor de águas foi a leitura de Fever Pitch, de Nick Hornby, indicação do colorado Rafael Froner. Esta pérola da literatura sobre futebol abriu meus olhos para o que é a vida dum torcedor “rato de arquibancada”, numa visão realista e sem glamourização, que trata do homem comum que habitava os estádios ingleses enquanto eles ainda eram o habitat da classe operária.

Fever Pitch, lançado no Brasil como "Febre de Bola"

Fever Pitch, lançado no Brasil como ‘Febre de Bola’

A partir desse momento sabia que precisava ir aos estádios da cidade, pelo menos uma vez, para tentar seguir os rumos de Nick (já havia ido ao Morumbi algumas vezes, mas não dá para ser um torcedor fiel morando a cem quilômetros da cidade sede do time). Já havia ido ao Brinco de Ouro com colegas de trabalho para ver uma partida do Guarani contra o Palmeiras (2 x 2, aquela partida da agressão de Émerson Leão a um repórter) e sabia que ali não encontraria aquele feeling que eu procurava. Então o meu destino era do outro lado da avenida Ayrton Senna: as arquibancadas do Moisés Lucarelli.

Ironicamente, esse estádio (seus arredores, na verdade) foi palco de um episódio que fez eu me sentir “em débito” com a Macaquinha: o assassinato covarde do Conde, figura folclórica da Torcida Jovem Ponte, por cerca de oito são-paulinos da Torcida Independente armados de barras de ferro às vésperas de um encontro entre os dois clubes no Brasileiro de 2005. Eu não era membro da TTI, só conhecia de vista alguns envolvidos, mas isso ajudou – e muito – a perder o encanto pela torcida. (Mais sobre esse caso pode ser lido aqui).

conde

Comprei meu ingresso para Ponte Preta x Rio Preto, oitava rodada do Paulistão. Fui ao campo com dois amigos (primos e colegas da IBM) e passei por um batismo de fogo, aliás, de água: chuva de verão, granizo, jogo paralisado e a redenção com um gol chorado e feio. Saí do estádio com a certeza que naqueles noventa minutos (mais muitos de acréscimos) eu havia torcido com mais entusiasmo do que nas partidas decisivas que havia acompanhado com o São Paulo. Depois disso surgiu a dúvida: para qual time torcer? Claro, a Ponte jogava do lado de casa, era o time com o qual eu havia me identificado, já tinha amigos alvinegros; mas a possibilidade de continuar comemorando títulos expressivos torcendo pelo Tricolor era bem maior.

Algumas semanas depois surgiu o jogo que citei no começo do texto, a derrota para o Corinthians. Com ingresso na mão, vi algumas dezenas de rostos familiares e essa identificação (e um pouco do eterno provincianismo campineiro) ajudou a balança do meu juízo a pender para o lado do clube campineiro. Além disso, torcer para a Ponte Preta exigiria a entrega, o sofrimento e a devoção numa medida que eu achava mais correta para uma relação entre torcedor e clube. Como diria Milton Neves, “torcer para o São Paulo é uma grande moleza”, mas de vez em quando fica tão fácil que isso se torna comodismo. Enfim, após o jogo, saí com a cabeça feita e abri mão do passado de títulos para abraçar um futuro de devoção. Ainda respeito o ex-clube, não vou cuspir no prato que comi com piadas e aquele famoso apelido, mas o inédito tri brasileiro (que veio após a separação) foi a prova de que eu já havia virado essa página e que não havia retorno.

- Luiz Bomfim Fabiano

Imagens:

1- www.dollev.com

2- www.organizadasbrasil.com

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18 Commentários for “Meu manifesto vira-casaca”

  1. 1Fernando

    Adorei o texto! Bem genuíno, um dos melhores do blog!

  2. 2Giovanni

    É um baita texto mesmo, porque mostra como se deve acompanhar o futebol. Salve.

  3. 3Germano Jaeschke Schneider

    Tá, mas tu morava em Campinas e não nutria simpatia por nenhum dos dois clubes?

  4. 4Vilmar Junior

    Muito bom texto, e parabéns!

  5. 5Luiz Fabiano

    Simpatizava com a Ponte desde criança, inclusive num site não-oficial cheguei a me cadastrar em 2004 falando que era tricolor, mas que tinha a Macaca como segundo time. Acho que o problema foi ter me afastado completamente do futebol durante a adolescência, que seria o momento de mergulhar de cabeça no time local.

  6. 6Salvador

    Luiz.. meus parabens cara! Isso eh uma amostra que o futebol ainda tem salvacao

  7. 7Marcus Vinícius

    Bah, texto muito sincero, verdadeiro, muito foda transmitir isso. Parabéns Luiz!

  8. 8Guilherme Pilotti

    Primeiro, nunca convidarei o Luiz para um jogo, sempre que ele vai acontece alguma tragédia/fato insólito.

    Segundo, palmas para quem entendeu que o futebol é mais do que “trago y alento” e taças no armário. Futebol é paixão, só isso.

    Belo relato.

  9. 9Jamie

    Parabéns pelo texto! E também pela coragem.
    Muito bacana mesmo.

  10. 10glubz

    :õ)

  11. 11R

    Bela história.

  12. 12A-wr

    Excelente texto.
    Sinceridade

  13. 13Gabriel

    Como diz o hino, “uma vez Flamengo, flamengo até morrer” , mas a paixão pelo futebol me faz chorar pelo Bangu Futebol Clube e me deslocar do Rio à Porto Alegre para ver o Grêmio ganhar do Sto André. Futebol é paixão, o flamengo é uma delas, não a única.

    Saudações

  14. 14rafael botafoguense

    não troco o botafogo pelo tupi nem a porrete.

  15. 15filipe

    mas o botafogo é do nivel da ponta preta

  16. 16Yuri

    Flávio Prado reloaded.

  17. 17rafael botafoguense

    hahaahah pode crer,odeio aquele filho da puta.

  18. 18Marco Andrade

    Ahhh Luizão como um primo meu me disse..

    Torcer pra ponte é aquela coisa, como sempre perde e não ganha titulo e quando ganha alguns jogos seguidos e chega perto de alguma decisão a emoção é tão grande que chega a ser inexplicável a emoção. Ver o Magestoso lotado, torcida vibrando, só quem é pontepretano sabe.
    Bem vindo ao lado “alvinegro” da força ahah

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