Inter, pela segunda vez

A taça Libertadores da América, que já escanteada injustamente pelos clubes brasileiros no ínicio do século passado, hoje é a competição mais importante de todos eles (Mundial FIFA “MY ASS” a competição a ser ganha é a Libertadores, o resto é resto) e com razão é a mais desgastante e que a mais reserva surpresas em sua trajetória, como foi para o time bicampeão desse ano.
A competição começou com um Uruguaio no seu comando, com um elenco dito ótimo e com peças de reposição para todas as posições. Não foi bem assim que a banda tocou, e muito menos, o Inter tinha o melhor elenco do país. O uruguaio Fossati tinha problemas de relacionamento no grupo do Inter e, quem sabe, a sua imposição de comissão técnica tenha sido equivocada desde o seu início. O Inter tem um dos melhores preparadores físicos do país, Fábio Masseredjian, que trabalha inclusive na seleção brasileira, porém, por imposição de Fossati, nos primeiros jogos do ano, tivemos o seu próprio preparador físico, e era visível duas coisas:
1. Alejandro Valenzuela não estava a vontade com o grupo e não conhecia as demandas de preparo físico do Brasil.
2. O Inter não tinha “pernas” para correr o jogo todo e era comum o time “morrer” depois dos 25 minutos do segundo tempo.
Talvez por essas dois motivos principais, tivemos jogos facéis no Campeonato Gaúcho que foram complicado, e derrotas inesperadas para times com menor expressão do que o Inter, lógico que, aliado à isso ainda tivemos algumas escolhas erradas e um esquema tático completamente perdido no time do Inter pré-Copa.
Com esse time desorganizado táticamente, sem padrão de jogo e sem esquema definido o Inter começou a sua trajetória na Libertadores 2010, num grupo que tinha Deportivo Quito, Cerro do Uruguai e Emelec, além do próprio Inter. Como de costume, a primeira fase costuma ser fácil para os clubes brasileiros – exceção ao próprio Inter em 2007 que na sua megalomania Pífferiana não foi capaz de classificar para as oitavas – e, mesmo com um time perdido em campo, o Inter se
classificou em primeiro lugar.
Mas mesmo assim, a primeira fase teve contornos mais dramáticos do que deveria, por pura inoperância do próprio treinador colorado e da direção, que já havia percebido que não tinha as peças certas para o elenco, mas mesmo assim o Inter sempre se valeu do fator “casa” ganhando todos os jogos dentro do Beira-Rio – e essa máxima valeu até o final do torneio – de modo que a classificação veio e o adversário nas oitavas era o campeão do Apertura de 2009, o Banfield.
Um clube que joga num estádio acanhado e joga no estilo argentino antigo, com bastante catimba e se valendo muito do fator local para se classificar. No primeiro jogo, numa das arbitragens mais caseiras da competição o Banfield sagrou-se vencedor, num jogo que teve paralisações e expulsões e que acabou classificando o Inter com um gol salvador, de fora da área, de Kléber.
No jogo de volta no Beira-Rio o Banfield acabou cometendo o mesmo erro de todos os clubes que vieram até Porto Alegre jogar, ficou atrás. Se retrancou. Isso foi fatal para o Inter conseguir o resultado necessário – 2×0 – e alçar-se a condição das quartas-de-final, contra o campeão do ano passado e já conhecido adversário da final da Sulamericana de 2008, o bom time do Estudiantes de La Plata, de Verón.

Este sim pode ser considerado “O” jogo da Libertadores 2010 para o Inter. Com uma vitória magra aqui no Beira-Rio, num jogo que novamente fora de ataque contra defesa, e com um gol do zagueiro Sorondo numa jogada de bola parada foi conseguido o segundo mais sofrido 1×0 da competição, que dava uma magra vantagem para o jogo na Argentina.
Dizem que existe a famosa “sorte de campeão” que acompanha todos os campões, e que sem ela é impossível ser campeão. Esse segundo jogo do Inter, contra o campeão anterior, foi o jogo onde a sorte de campeão se mostrou ao colorados. Depois de um jogo terrível, onde tivemos um ELP constantemente no campo de ataque, que fez um gol logo nos primeiro minutos do jogo e martelou a zaga insegura do Inter até que o segundo gol apareceu, num jogo catimbado e violento, onde brilhou a estrela de um jogador que colocou a paixão da mídia, PH Ganso, na reserva da seleção sub-20, Giuliano, aos 47 minutos do segundo tempo, ajudado pela fumaça que os próprios argentinos jogaram no campo, deu um chute certeiro e cego no canto esquerdo da meta argentina, morrendo ali a esperança do ELP e nascendo o campeão. Com mais vontade do que técnica ou talento, o Inter, aos trancos e barrancos se credenciava para, mais uma vez, enfrentar o time brasileiro mais vitorioso das Libertadores da América, o SPFC.
Mas o time não vinha bem, havia perdido o estadual para o rival tomando 0×2 em casa, perdido o brio e estava se sentindo acossado no seu próprio campo. O Inter não casava mais com Fossati e nem com Alejandro Valenzuela, os três eram incongruentes, não estavam no mesmo ritmo, não estavam alinhados com as pretensões do clube, e, aproveitando o recesso da Copa do Mundo, foi-se embora Fossati e toda a sua comissão e veio apenas Celso Roth, o questionado Celso Roth, que levou o Inter na sua pior década ao terceiro lugar no campeonato brasileiro, naquele que ainda é o melhor time montado pelo Inter em tempos, em 1997.

Indo na onda da moda tática lançada pela Copa do Mundo por Espanha, Holanda e tanta outras seleções, Celso Roth percebeu que o melhor esquema para o Inter era se aproveitar da habilidade técnica de seus dois meias-atacantes: D’Alessandro e Taison, que vinham mal e questionados pela torcida desde o início dos trabalhos de Fossati, que a possibilidade de saída deles era iminente.
Conseguiu trazer os dois meias de volta ao time, aproximou-os da torcida com apresentações que há muito tempo não se via no futebol do colorado. Entendeu que ele tinha um dos melhores volantes do país – rivalizando de igual para igual com o badalado Hernanes do SPFC – e que ele deveria ser aproveitado como tal, e não tendo que cobrir as insistentes subidas ao ataque do gringo Guiñazu, que só com Celso Roth achou a sua posição ideal, à frente do volante Sandro. Ajudado pelas contratação na janela da Copa, Roth ainda teve a possibilidade armar o seu 4-3-2-1 – ou 4-2-3-1 – com Tinga ao lado de Guiñazu, de maneira que poucos times na américa tinham uma meia-cancha tão equilibrada e habilidosa como a do Inter. Soma-se à isso a elevação do falante e sangüíneo Bolívar ao posto de capitão do time, a volta de Renan ao gol colorado e principalmente ao novo esquema de jogo que privilegiava a habilidade da perna esquerda de Kléber, responsável pelas melhores jogadas do Inter na Libertadores 2010.
Com essa nova armação de jogo, o treinador Celso Roth levou o Inter à um recomeço incrível no campeonato brasileiro pós-Copa, tirando o combalido ex-time de Jorge Fossati de uma incomoda posição próxima ao Z4 do campeonato brasileiro direto para a terceira posição do mesmo, mas ainda faltava a re-estréia na Libertadores e a redenção dos amaldiçoados jogos anteriores, onde o que valeu mais foi o coração do que qualquer outra coisa, e logo contra o SPFC, clube contra o qual o Inter tinha se segrado campeão 4 anos antes, coincidentemente em outro ano de Copa.
O primeiro jogo no Beira-Rio parecia um revival dos anteriores, um jogo onde Ricardo Gomes armou um covarde SPFC que ficou o tempo todo atrás da bola, com todos os seus jogadores preocupados em marcar e impedir qualquer tipo de avanço colorado, porém, sem se preocupar em fazer gols no Inter – e esse foi o maior erro do SPFC – e então, numa alteração eficaz do time de Celso Roth, Giuliano entrou para decidir o jogo, com um gol “chorado” já na segunda metade da segunda etapa e levar uma, novamente, magra vantagem para o Morumbi. Este segundo jogo sim se mostrou o mais nervoso e dramático da competição, talvez exatamente por se tratar do time mais habilidoso do certame e principalmente, por haver uma vontade de se vingar por 2006. Com declarações de Rogério Ceni e Hernanes o SPFC mais falou do que fez, abriu o placar em um primeiro tempo morno que só se esquentou por ocasião de uma falha primária do goleiro Renan, tão bom goleiro em outros tempos, mas que na nessa volta se mostra hesitante, nervoso e inseguro. E o jogo apenas esquentou no segundo tempo quando, numa falta mal cobrada de D’Alessandro, em que Alecssandro conseguiu colocar o calcanhar no meio da trajetória certeira para as mãos de Ceni, e acabou traindo o arqueiro tricolor, morrendo no fundo do canto esquerdo. 1X1 que durou menos de 10 minutos, quando – discuto ainda se Renan não chegou atrasado na bola – Ricardo Oliveria desempatou e deu a vitória, insuficiente, ao SPFC, que se empenhou nos últimos 15 minutos do jogo mais do que em todos os outros 75 minutos de jogo, onde o coração se inflou e a respiração parou, ajudada pela infantil expulsão de Tinga e pela insegurança de Renan e Índio. Porém, como eu disse la atrás, a sorte de campeão é necessário, e nenhum time é campeão sem sorte e sem habilidade – time só com raça é um bando chafurdando na lama, e time sem raça é um circo de focas amestradas, é preciso unir as duas e mais a sorte para sair campeão – e o Inter, felizmente, tinha as duas nessa última fase.
Chega a final, contra um time mexicano, o que incomoda quase todos os sulamericanos, mas que a CONMEBOL ignora e segue, em nome das cifras, convidando os chicanos para jogar a competição máxima do futebol mundial.
O Chivas, um clube de torcida gigantesca, comparável à do Flamengo, jogou no seu moderno estádio, com grama sintética a acomodações de primeiro mundo, dignas de uma Copa. Mas, apesar de perigoso no ataque, foi completamente inoperante e covarde, e mais uma vez o encaixe técnico promovido por Celso Roth prevaleceu, e apesar de ter saído perdendo num gol de cabeça, oriundo de uma falha coletiva da defesa do Inter – posicionamento, bola mal passada e lentidão – o Inter chegou à vitória depois da entrada de Giuliano – e depois de Roth ter tido a hombridade de reconhecer o seu erro ao colocar Éverton, atacante insuficiente para jogar uma final de Libertadores - conseguiu trazer para Porto Alegre uma boa vantagem – e pela primeira vez ganhar fora de casa na Libertadores – e da forma que jogou, todos ali tiveram a certeza que a hora do BI tinha chegado.
No Beira-Rio, com um início de jogo nervoso e com uma confusão tática que nos fez remontar aos primeiro jogos, lá na “era Fossati” ainda, o Inter pouco produziu em tero ofensivos e menos ainda conseguiu manter a tão alardeada posse de bola que ocorreu no México. O produto disso foi um belo gol mexicano, novamente no final do primeiro tempo, onde ficou claro que a defesa do Inter, apesar de ter um bom zagueiro na direita, Bolívar, e um bom lateral na esquerda – Kléber – se mostrou fraca e lenta nas figuras de Nei e Índio, que não é mais o mesmo zagueiro de 2006.
Como se fosse um revival do primeiro jogo no México, Celso Roth novamente teria de ganhar o jogo no intervalo, e foi o que fez, sem nenhuma alteração o time voltou muito melhor, sem afunilar o jogo pelo meio e usando muito mais a ala esquerda, aprovaitando a técnica apurada de Kléber e os seus bons cruzamentos – de onde inclusive nasceu o primeiro gol do Inter no jogo com Rafael Sóbis aparando um cruzamento de Kléber no meio da área – e mais ainda com a inversão dos meia ofensivos do Inter, trocando de posição Taison e D’Alessandro. Os dois gols seguintes foram questão de tempo, quando o Chivas se lançou ao ataque, afinal nada mais tinha a perder, os espaços foram pródigos ao Inter e Leandro Damião, numa arrancada que lembrou os bons tempos de Nilmar, chutou com força na saída do goleiro mexicano, marcando o segundo da partida e sacramentando o título e a taça colorada. Ainda tivemos a plástica jogada do terceiro gol de Giuliano, que chegou aos 6 na competição e o segundo e enfadonho gol mexicano, num bela fakta cobrada pelo marrento Bautista.
Nada disso porém importava mais, o grito de bicampeão se fazia ouvir até no Acre.
A massa colorada em êxtase não enxergava mais nada, os olhos envoltos lágrimas, prediziam o quão sofrido havia sido aquele título para todos os colorados envolvidos. Aquele último grito, aquela última lágrima, o último punho cerrado em riste que encontra o ar cortando-o através do ar gelado do guaíba, tudo isso ficou pequeno quando Bolívar ergueu triunfante a taça, em direção aos céus. Era a justiça futebolística para aquele grupo tão criticado, que todos sabiam que tinha potencial, e principalmente para o treinador que chegara ao patamar dos inalcançáveis campeões da américa.

Parabéns, cegamente, ao segundo título do Inter.
- Guilherme “Amargo” Pilotti
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